Neste artigo (9 seções)

O acetato de medroxiprogesterona (Provera) é um progestagênio sintético usado para tratar alterações menstruais e como a “parte progesterona” da reposição hormonal da menopausa, protegendo o endométrio de quem toma estrogênio. Ele caiu em desuso na reposição hormonal depois do estudo WHI (2002), que associou a combinação de estrogênio com medroxiprogesterona a um aumento no risco de câncer de mama e de eventos cardiovasculares — hoje existem progestagênios considerados mais favoráveis para essa finalidade. Ainda assim, o medicamento continua tendo usos importantes. Este guia explica o que é o AMP, para que serve, seus efeitos colaterais e por que ele perdeu espaço. Por ser um tema de saúde, nada aqui substitui a avaliação do seu médico.

O que é o acetato de medroxiprogesterona

O acetato de medroxiprogesterona — abreviado como AMP ou MPA — é um progestagênio sintético, ou seja, uma substância fabricada em laboratório que imita a ação da progesterona, o hormônio que o corpo da mulher produz naturalmente. No Brasil, ele é conhecido principalmente pelo nome comercial Provera, na forma de comprimidos, e como Depo-Provera, na forma de injeção.

É importante entender desde já: apesar de “imitar” a progesterona, o AMP não é bioidêntico. Isso significa que a molécula dele é diferente da progesterona humana, e essa diferença ajuda a explicar parte dos seus efeitos colaterais. Ele pertence a uma família mais antiga de progestagênios, muito usada a partir dos anos 1960, e por décadas foi o progestagênio mais prescrito na reposição hormonal.

Para que serve o acetato de medroxiprogesterona

O AMP tem indicações bem estabelecidas, tanto em ginecologia quanto na saúde da mulher em geral. Os comprimidos de Provera são usados principalmente para:

  • Amenorreia secundária: ausência de menstruação por três meses ou mais em mulheres que já menstruavam.
  • Sangramento uterino disfuncional: sangramentos irregulares, fora do período menstrual, sem causa orgânica.
  • Reposição hormonal na menopausa: como complemento do estrogênio, para proteger o endométrio (a camada interna do útero).
  • Deficiência de progesterona: em situações específicas avaliadas pelo ginecologista.

Na forma injetável (Depo-Provera), a substância é usada principalmente como anticoncepcional de longa duração, com aplicação a cada três meses. Vale destacar que o comprimido de Provera não tem efeito contraceptivo — são apresentações e finalidades diferentes, um ponto que confunde muita gente.

Como o AMP protege o endométrio na reposição hormonal

Na reposição hormonal, o papel do acetato de medroxiprogesterona é proteger o útero. Quando a mulher na menopausa toma estrogênio para aliviar sintomas como calor e ressecamento, esse estrogênio estimula o crescimento do endométrio. Se nada contrabalançar esse estímulo, a camada pode crescer demais — é a hiperplasia endometrial, que aumenta o risco de câncer de útero ao longo do tempo.

O progestagênio entra justamente para frear esse crescimento e manter o endométrio fino e seguro. Toda mulher que ainda tem útero e faz reposição hormonal com estrogênio precisa de um progestagênio associado — e, por muitos anos, o AMP foi esse progestagênio padrão. Para entender melhor a lógica geral de progesterona e seus substitutos, o texto sobre a diferença entre progesterona e progestagênio ajuda bastante.

Como usar e doses na menopausa

As doses do Provera dependem da condição tratada e devem sempre ser definidas pelo médico. Na terapia hormonal da menopausa, os esquemas mais comuns são:

  • Contínuo: 2,5 a 5 mg por dia, todos os dias, junto com o estrogênio.
  • Cíclico: 5 a 10 mg por dia, durante 10 a 14 dias a cada mês.

Para outras indicações, como amenorreia e sangramento disfuncional, costuma-se usar 2,5 a 10 mg por dia durante 5 a 10 dias, por alguns ciclos. O comprimido é tomado por via oral, sem partir nem mastigar, e o tempo de tratamento é individualizado. Nunca se deve dobrar a dose para compensar um comprimido esquecido.

Efeitos colaterais do acetato de medroxiprogesterona

Os efeitos colaterais são um dos motivos pelos quais o AMP perdeu espaço para progestagênios mais novos. Os mais relatados incluem:

  • Dor de cabeça e tontura;
  • Ganho de peso e retenção de líquidos (inchaço);
  • Sangramento vaginal irregular ou ausência de menstruação;
  • Sensibilidade ou dor nas mamas;
  • Alterações de humor, incluindo sintomas depressivos em algumas mulheres;
  • Acne, alterações na pele e nos pelos;
  • Insônia e nervosismo;
  • Piora do controle da glicose em pessoas predispostas.

Medroxiprogesterona engorda?

O AMP pode causar aumento de peso, em boa parte por retenção de líquidos e, em algumas mulheres, por aumento do apetite. Não é uma regra para todo mundo, e o efeito varia de pessoa para pessoa. Ainda assim, essa é uma das queixas mais frequentes com esse progestagênio — e um dos motivos pelos quais muitas mulheres preferem alternativas hoje. Ganho de peso importante ou rápido deve sempre ser avaliado pelo médico, porque pode ter outras causas.

Por que o acetato de medroxiprogesterona caiu em desuso

Aqui está o ponto central. Em 2002, um grande estudo americano chamado Women’s Health Initiative (WHI) avaliou milhares de mulheres na pós-menopausa que usavam estrogênio equino conjugado combinado com acetato de medroxiprogesterona. O braço com essa combinação foi interrompido antes do previsto porque os dados apontaram aumento no risco de câncer de mama e de eventos cardiovasculares, como AVC e trombose.

O impacto foi enorme: em alguns países, a prescrição de reposição hormonal caiu até 80% nos anos seguintes. Nascia ali boa parte do medo da reposição hormonal que persiste até hoje. O detalhe importante — e que os anos seguintes ajudaram a esclarecer — é que grande parte desse risco estava ligada justamente à combinação com o AMP e ao perfil das mulheres estudadas (muitas com mais de 60 anos e anos de menopausa). Reanálises posteriores mostraram que, quando a reposição é iniciada mais cedo e com progestagênios diferentes, o equilíbrio entre benefícios e riscos é bem mais favorável.

Por isso, na reposição hormonal atual, muitos médicos preferem progestagênios considerados mais neutros para a mama e para o coração, como a progesterona micronizada (Utrogestan), que é bioidêntica, e a didrogesterona (Duphaston). O AMP não foi proibido, mas deixou de ser a primeira escolha para essa finalidade específica. Vale lembrar que a própria terapia de reposição hormonal foi sendo “reabilitada” à medida que a ciência refinou quem se beneficia e com quais hormônios, como mostram reportagens de veículos como a National Geographic Brasil.

AMP x progesterona micronizada x didrogesterona

A tabela abaixo resume por que os progestagênios mais novos costumam ser preferidos hoje na reposição hormonal — sem deixar de reconhecer as vantagens do AMP:

Critério Acetato de medroxiprogesterona (Provera) Progesterona micronizada (Utrogestan) Didrogesterona (Duphaston)
Tipo Progestagênio sintético mais antigo Bioidêntica (igual à natural) Sintética “próxima” da natural
Risco de mama na TRH Foi o mais associado no WHI Perfil considerado mais neutro Perfil considerado favorável
Efeito no humor Pode piorar em algumas Costuma ser bem tolerada Costuma ser bem tolerada
Efeito no sono Neutro Oral costuma dar sono Não costuma dar sono
Custo/acesso Baixo, disponível no SUS Intermediário Intermediário
Posição atual na TRH Segunda linha Muito usada Muito usada

O AMP ainda é usado hoje?

Sim, o acetato de medroxiprogesterona continua sendo um medicamento útil e não foi banido. Ele tem baixo custo, ampla disponibilidade (inclusive no SUS) e ainda é indicado para amenorreia, sangramentos disfuncionais e como contracepção injetável (Depo-Provera). O que mudou foi o seu lugar na reposição hormonal da menopausa: nesse contexto, ele deixou de ser a escolha automática e passou a dividir espaço com progestagênios de perfil considerado mais seguro para a mama e o coração.

Em outras palavras, “cair em desuso” não é o mesmo que “ser proibido”. É uma decisão individualizada: para muitas mulheres, existem opções melhores; para outras, o AMP ainda pode fazer sentido. Só o seu ginecologista, avaliando seu histórico e seus riscos, pode definir o melhor progestagênio para o seu caso.

Perguntas frequentes sobre o acetato de medroxiprogesterona

Para que serve o acetato de medroxiprogesterona?

Serve para tratar amenorreia (ausência de menstruação), sangramento uterino disfuncional e para compor a reposição hormonal da menopausa, protegendo o endométrio de quem toma estrogênio. Na forma injetável (Depo-Provera), é usado como anticoncepcional de longa duração.

Medroxiprogesterona engorda?

Pode causar ganho de peso, principalmente por retenção de líquidos e, em algumas mulheres, aumento do apetite. O efeito não é universal e varia bastante de pessoa para pessoa. Aumento de peso importante deve ser investigado pelo médico.

Por que a medroxiprogesterona caiu em desuso na reposição hormonal?

Porque o estudo WHI, de 2002, associou a combinação de estrogênio com AMP a maior risco de câncer de mama e de eventos cardiovasculares. Isso levou os médicos a preferirem progestagênios mais novos, como a progesterona micronizada e a didrogesterona, para a reposição hormonal.

Medroxiprogesterona é a mesma coisa que progesterona?

Não. A medroxiprogesterona é um progestagênio sintético que imita a progesterona, mas não é bioidêntica. A progesterona micronizada, por exemplo, é idêntica à natural do corpo; o AMP tem uma molécula diferente e efeitos colaterais próprios.

Qual a diferença entre Provera e Depo-Provera?

O Provera é o comprimido oral, usado para alterações menstruais e reposição hormonal, e não tem efeito anticoncepcional. O Depo-Provera é a injeção, aplicada a cada três meses, usada como método contraceptivo de longa duração.

A medroxiprogesterona aumenta o risco de câncer de mama?

No estudo WHI, a combinação de estrogênio com AMP foi associada a um pequeno aumento no risco de câncer de mama com uso prolongado. Esse risco depende de vários fatores individuais e do tempo de uso, e deve ser discutido com o médico. Não é o mesmo que dizer que qualquer uso causa câncer.

A medroxiprogesterona ainda é usada hoje?

Sim. Continua indicada para amenorreia, sangramentos disfuncionais e como contracepção injetável, e ainda é usada por baixo custo e fácil acesso. Na reposição hormonal, porém, deixou de ser a primeira escolha para muitas mulheres.